Dia #29

Maio 27, 2010

A média das idades da turma ronda a aposentação. Daí que os exercícios na água sejam relativamente simples de concretizar. A minha juventude pede algum esforço extra, uns músculos mais contraídos, uma concentração maior e uma malandrice menor em fugir ao tamanho real da piscina, para que se sinta exercitada. Durante a aula, vagarosa mas dedicada, os olhos caem nas pistas do lado, onde a música ritmada impõe a dinâmica dos movimentos da hidroginástica. Admiro a energia que não se esgota, quer dos corajosos desportistas, quer da professora incansável. E invejo.

Hoje, a conversa foi diferente. Por algum motivo, a professora teve de ser substituída. Apesar dos exercícios pachorrentos iniciais que nos indicou, a nova professora encaminhou-nos para uma aula diferente. Aproveitou-se a música do outro lado. Em vez das caminhadas ao longo da piscina, concentrámos energias no lugar e repetimos movimentos. Vezes e vezes. Até o músculo pedir descanso. Muda-se um pouco o gesto, de novo até sentirmos o corpo responder, e repetimos tudo. Desta vez, o tempo passou devagar. Desta vez, implorei um pouco mais às reservas energéticas que preguiçavam em mim. Desta vez, terminei a aula com a certeza de que, no dia seguinte, estaria dorida. E saí satisfeita.

Comigo: Just Let Go – Fischerspooner

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Dia #28

Maio 26, 2010

A chamada percorre três mil quilómetros, mas o toque é igual. Esperava algum dramatismo, afinal não é todos os dias que um telefonema percorre tantos quilómetros, mas não houve direito a um tempo de espera maior, a problemas na ligação ou a sons esquisitos para anunciar a passagem de fronteiras. Foi simples. Como se estivéssemos tão perto. Seria bom.

A língua com que me recebe difere, mas o cumprimento é, certamente, o mesmo. Ao recorrer à língua que nos é, a ambas, familiar, introduzo o telefonema. Muitos parabéns, minha amiga. As saudades apertam e ouvir de novo o teu sotaque traz-me alguma paz dos dias que partilhámos. Tenho saudades de me rir contigo, das longas conversas, mas não to digo. Dou apenas os parabéns, porque o dia hoje assim o exige, relembro a vontade e a oportunidade de te voltar a ver e finjo que não passa tanto tempo assim sem te ouvir. Soube bem.

Comigo: Parti – Mor Ve Ötesi

Dia #27

Maio 26, 2010

“Hoje não há camarão!”, avisou logo. Pouco importaria, aliás, podiam-se escolher outros ingredientes. Não se importou e até brincou “Ooooh!”. A senhora do balcão vira-se para a colega, carrancuda, “porque há quem peça a salada mista e quando se apercebem que já não há camarão, já não querem!”, e larga o punho sobre a bancada, fazendo soar a zanga. “Tenha calma!”, ainda lhe dissemos, para tentar acalmar os ânimos. Não tivemos sorriso de volta. Assustada, fiz o pedido a medo, que o olhar baixo e os lábios fortemente cerrados exigiam muito respeito.

Seguimos para o fim do balcão para receber o pedido. Depois dos ingredientes, perguntou pelo molho. Cocktail, seria a escolha. “Esse não temos.” Para evitar mais agressividade, optou-se pelo tom de brincadeira “Não me diga!”. Para nossa surpresa, um rasgado sorriso responde “Estava a brincar!”. Assim já vale a pena, tão mais bonita de ver com um sorriso assim.

Há personalidades que não se compreendem.

Comigo: 3 Libras – A Perfect Circle

Dia #26

Maio 24, 2010

“Olá!”

Na rua, não esperamos intervenções alheias. Aguardamos alguém conhecido e quem nos cruza é apenas gente que nos cruza.

Porém, ouvimos um cumprimento simpático. Procurámos a sua origem, que nos soou longínqua, mas dirigida. Encontrámos duas figuras à janela no último andar do prédio em frente. As jovens acenam. Foi para nós o cumprimento, que mais ninguém se encontra nesta direcção. Mantenho a postura passiva enquanto a minha companhia acena de volta. Nenhuma de nós faz ideia de quem sejam. Serão apenas duas raparigas à janela, a chamar outras duas raparigas na rua.

Porém, um aceno correspondente não lhes chega. Mantêm a chamada de atenção. “É pr’á d’azul!” Sou eu. Estou de azul. Acordo então e aceno. Recebo algum entusiasmo no gesto de volta. Não consigo ler as suas caras daqui, mas mantêm-se fixas em nós.

Não sei quem me acenou. Daí a pouco desapareciam da janela. Ainda julguei que estivessem a descer para a rua, para continuar a conversação um pouco mais de perto. Quem aguardavamos acabou por chegar pouco depois e mais ninguém me acenou da janela do alto.

Comigo: Once and Over Again – The Long Blondes

Dia #25

Maio 23, 2010

O casal chama a atenção. Não porque quer, mas porque estou atenta. O cabelo, rapado nas margens para o deixar tigelado, com um pequeno tufo mais longo do lado esquerdo, atrás da orelha, é a primeira característica que salta à vista. Segue-se a camisola larga, solta sobre o corpo, o anel no lábio à direita, a língua possivelmente furada e a tatuagem circular no cotovelo esquerdo, que surge quando o calor aperta e a roupa se despe. Seguem-se os gestos.

O olhar não desprende da rapariga que acompanha, de tal forma que não se apercebe da atenção que lhe dedico, a pouco metros de distância, a um curto desvio do olhar. Logo que a oportunidade surge, o polegar escorrega pela sobrancelha dela, possivelmente encenando uma limpeza casual de algum incomodo. Noutro momento, cruzam-se os dedos sobre a mesa e servem os pontos de contacto para alguma troca de mimos.

Na mesa em frente, de costas para o casal, alguém culpa o americano gay emigrado em Portugal de ter dado início a este deboche, porque eles agora querem tomar conta disto tudo, esses gays, que não fazem evoluir a espécie, são estéreis, que com eles a sociedade morre.

Indiferentes à indignação, as duas raparigas permanecem de olhar fixo, ouvido mouco e coração entregue.

Comigo: How Soon is Now – The Smiths

Dia #24

Maio 22, 2010

Sabe bem voltar a casa. A correria da capital fica para trás e ouve-se de novo o rio. Preciso de o ver. À beira-mar, revejo os velhos à sombra, os miúdos que saltam dos barcos, os pescadores e os barcos à vela. O rio fala baixinho e acalma o espírito inquieto. O mar aguarda-nos e a serra permanece amiga. Relembro o castelo e a vontade de me embrenhar na montanha cresce. Vamos.

O mar à esquerda, tão azul, acompanha a estrada ondulada até às praias. A vontade de regressar é grande, preciso do colo da casa. Mas o dia não é o melhor, não sou a única a desejar aquele areal. A maré baixa prende os banhistas e atrai famílias. O transito entope com o estacionamento improvisado na berma da estrada. Os carros páram, a paciência esgota-se. Fica para outro dia, então, o regresso à minha areia.

E sinto, e sei, esta é a melhor praia do mundo.

Comigo:The Rip – Portishead

Dia #23

Maio 21, 2010

O metro, por vezes, traz gente curiosa. Na plataforma, enquanto se aguarda a chegada do comboio, observa-se. Indiferente à espera, uma rapariga treina as suas habilidades malabaristas. De cabelo apanhado, roupa desportiva, phones nos ouvidos, brinca com as três bolas no ar. Começa por atirar duas, por trás do outro braço, e não pára. Troca de técnica várias vezes sem nunca mostrar hesitação. Impressiona a habilidade nata, a descontracção nos gestos, a naturalidade da brincadeira e a completa indiferença pela quantidade de olhares que se acumulam, desta e da outra plataforma em frente, hipnotizados com a rapariga.

Chega o metro e rapidamente guarda as bolas de novo na mala. Entra e encosta-se a um canto, descontraída. Não baixa o olhar, não fita ninguém, encosta-se, apenas, mergulhada em si e na música que ouve, até à próxima estação, onde sai. Não viu ninguém. Ia só.

Comigo: Common Reaction – Uh Huh Her

Dia #22

Maio 20, 2010

O calor voltou em força. Depois de uma caminhada longa, em que as sombras escassearam, chego, por fim, ao restaurante. Era mais um da cadeia de restaurantes que mais enfartes deverá provocar um pouco por todo o mundo. Neste, em particular, decorria uma tentativa de animação por parte do seu palhaço mascote. Um senhor, vestido a rigor, pintado como manda o manual, procurava entreter as crianças que por ali passavam. Chamou por um miúdo pequeno, que hesitou em tirar a fotografia, e só após o compromisso de ter a mãe junto com ele é que cedeu. Não me parece que fique para a memória. Foi apenas um palhaço chato.

Tive pena do senhor. Apesar da boa disposição, não estava a ter muito sucesso. E, para além disso, não fui capaz de ficar indiferente ao calor tórrido que deveria estar a sofrer debaixo daqueles trapos. Até a maquilhagem devia pesar. Não se faz.

Comigo:Mouth to Mouth – Faith No More

Dia #21

Maio 19, 2010

Então do que se queixa? Ai, senhor doutor, estou assim há já uns dias… Mas assim como?

A senhora de idade vem à urgência com a amiga para resolver o problema de dores de garganta e de ouvido que se arrastavam há algum tempo. Como manda o protocolo, tem alguma dificuldade em dizer sintetica e objectivamente o que tem. Após observação, o doutor pergunta pelos medicamentos que a senhora toma. A senhora prontamente retira da mala um saco de plástico transparente que despeja em cima da mesa. Várias lamelas cobrem o espaço possível, cada uma de sua raça, cada qual com sua função.  Entre eles, os típicos comprimidos para dormir. Segue a consulta e, enquanto o doutor lhe receita mais umas quantas doses para adicionar ao saco já carregado, a senhora pede “Será que me podia passar umas vitaminas? É que tenho um problema de coração.”

Já muito se tinha falado ao longo das aulas sobre o fenómeno do saco de plástico. Já se tinha referido a dificuldade em comunicar, nos comprimidos para dormir e na sabedoria caseira sobre aquilo que cada um precisa. Só nunca julguei ver tudo isso na mesma pessoa.

Isto é uma história modelo.

Comigo:Anda que Está Dura – B Fachada

Dia #20

Maio 18, 2010

No fundo, é um negócio. As costas deviam estar quentes, apesar de o tentar disfarçar. Apresenta com entusiasmo a casa, realça os detalhes bonitos, a luz, o espaço, a localização, o projecto de finalização das obras. Mas não hesita em introduzir discretamente conselhos para a vida diária. Porque há honra e decência, insiste em afirmar. Porque há bom senso e boa conduta. E ficamos todos felizes, repete no fim, não só para convencer de que é um bom negócio, mas para, em segredo, a ladainha servir de prece para que, de facto, aconteça.

A idade ensinou-lhe a arte da palavra manuseada. Refere com um sorriso as amizades que têm com os vizinhos e como todos se conhecem e dão bem e, no fundo, serve como aviso. Pergunta pelos pais, pela naturalidade e brinca com a possibilidade de namorados na terrinha de cada uma. Para o ouvido atento, depreende-se o interesse em saber que existe algum compromisso na capital que possa comprometer as regras de decência naquela casa. Mas não importa, não deixa de ser um bom negócio, com ou sem metediço.

Comigo: Hanuman – Rodrigo y Gabriela