Dia #35

Julho 25, 2010

O sol torra, mas a leveza dos dias impele ao passeio de fim de tarde. Lisboa chama-nos pelo som ao ar livre, num dos jardins da cidade. A companhia, que já se tornou a do costume, aconchega-se na sombra escassa, sobre as luas do lenço estendido. Deito-me sobre o colo cúmplice, o pé mantém o compasso do contrabaixo, e os olhos perdem-se. Há o rio, ao longe, há o castelo, no alto, há a serenidade  no céu azul. Sem uma nuvem. Sem um peso em cima. De mim.

Como o céu sobre nós um pouco depois, num dos topos da cidade, onde se petiscava o pôr-do-sol e se encerrava um fim-de-semana cheio. Há algo de novo e grandioso no ar. Há um começo. Hoje.

Comigo: Luz Vaga – Mesa

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Dia #14

Maio 12, 2010

Por vezes é preciso subir ao topo da cidade para respirar. O sol começa a adormecer sobre os edifícios altos, que apressam a descida, e a alma recupera. A companhia respira connosco. A máquina fotografa o céu calmo que não se via há algum tempo. Observamos a cidade.

No edifício em frente ao lugar onde estamos, uma varanda longa destaca-se. Os pombos amontoam-se, indiferentes ao espaço de sobra nas restantes casas. A janela aberta exibe a secretária em reboliço, a cadeira vazia, a luz no soalho e a cortina branca leve. Não há constrangimentos à visita das aves à habitação, a janela alta convida, mas nenhuma se atreve a arriscar o passo. Queremos compreender.

Pouco tempo depois, surge alguém. Uma senhora vem cumprimentar os pombos, que a esperavam sossegadamente, sem esquecer a refeição por que tanto aguardavam. Chegam mais familiares ao banquete. E assim se completou o quadro.

Os telhados de Lisboa contam histórias. A luz do fim do dia reinventa-as. Oiço de peito renovado.

Comigo: Feeling Good – Nina Simone

Dia #9

Maio 7, 2010

O metropolitano traz sempre histórias. Pequeninas, mas suficientes.

Espreito por cima do ombro da mulher sentada atrás de mim. Aproveita para adiantar trabalho no joelho. Sorrio ao ver os testes que corrige rapidamente, com muitos vistos e certos. Uma pergunta não está tão bem respondida, pelo que acrescenta “não é assim”, a vermelho, como sempre. No fim do teste, há um boneco, para tirar um pouco o nervosismo aos miúdos.

Nunca estivesse deste lado, sempre imaginei algum formalismo na correcção dos testes. O professor sentar-se-ia no seu escritório escuro, rodeado de prateleiras recheadas de livros e, sob a luz incidente de um cadeeiro metálico, corrigiria compenetradamente cada teste, com calma e ponderação.

O professor tornou-se agora um pouco mais humano aos olhos da minha criança. Afinal, o metro é de todos.

Comigo: Oxalá te Veja – O’Questrada

Dia #7

Maio 5, 2010

Gosto do Chiado. Tira-me um pouco do peso do resto da cidade e parece mais livre.

Vejo um abraço logo que regresso à superfície. Pela natureza do mesmo, sorrio. Estou perto de casa agora.

Sentada junto à janela e, no quente que ainda não regressou às ruas, recebo as cores dos telhados da cidade. O céu limpo ilumina cada casa, o rio calmo, o castelo no alto, as paredes e as árvores que desenham a cidade neste painel. O peito acalma e respiro fundo, aqui o ar é mais vivo.

Invejo os cabelos e os rasgos de roupa. No fundo, invejo a despreocupação. Dois jovens tocam as suas guitarras e cantam baixinho aos professores para deixarem os miúdos em paz. Ninguém os ouve, julgaria que aqui não houvesse tanto medo ou vergonha na voz. Não importa. Há abraços, mais abraços, olhares, trajes, experiências. Há mais liberdade aqui.

Antes de mergulhar de novo, olho-o nos olhos e despeço-me. Até breve, Chiado.

Comigo: Cigarettes & Chocolate Milk – Rufus Wainwright

Dia #2

Abril 30, 2010

Estou cansada dos sons de Lisboa. Acordo para o ruído da rua, já atrasada e angustiada. Apressa-me as veias, que ainda agora se esqueciam das horas doentes do dia anterior, e rasga-me os lençóis onde me iludia. Um baque pela manhã. Acordo cansada e não tenho onde me restaurar.

O metropolitano teimou em deixou-nos de fora. Por isso, caminhei. No passeio poupado, senti cada carro frio passar por mim, cada bafo pesado que me dançava. Os olhos cerrados pela poeira dos dias, a penitência do acelerador do motociclo, o aperto da multidão disciplinada, sufocavam. Sou pequena nesta cidade abundante.

Estou de regresso ao meu quarto caseiro, fora da Cidade. Estranho as paredes brancas, como sempre o foram, sorrio ao espaço que me guardou para o regresso. Aqui não oiço aviões. Já não me recordo do som do amanhecer neste canto. Mas tenho saudades. Vou dormir e amanhã acordarei mais descansada. Aqui não tenho pressas. Estou em casa.

Comigo: Música – A Naifa