Dia #36

Setembro 2, 2010

E, no meio do jogo, voltou aquele cheiro. A padaria pela manhã, o silêncio da serra, o fresco das horas matutinas, e o pão, os bolos. E o sorriso da senhora que todos os dias nos cortava uma generosa fatia do bolo de chocolate e nos contava da sua infância pela serra, dos costumes, da família, das brincadeiras. A simpatia. E ali, a meio do jogo de ténis, a caminho de uma bola perdida, no canto do campo, foi ali que me voltou o cheiro ao pão do dia e me levou de volta àquelas manhãs. A senhora dá os bons dias, esconde os olhos nas bochechas sorridentes, e oferece um jantar da próxima vez que lá formos. Boas memórias, dias felizes e uma coincidência bem-vinda.

Comigo: Never Ending Why – Placebo

Anúncios

Dia #11

Maio 9, 2010

Porque surgiu aquela música. Esperava-a, é verdade, coloquei-a discretamente na lista de reprodução, mas não recordava já como me soava. E estavas a meu lado. Tinha tudo.

É aquela música laranja. A que nos relembra um momento nosso, uma partilha. Um segredo. Basta o primeiro som para acompanhar de volta ao outro primeiro instante. Olhei para ti, igual, e regressei a nós, um tempo antes. Não me ligaste muito, o tempo apertava e exigia-se concentração. Ao longo dos poucos minutos, não levantaste os olhos, não reconheceste a minha hipnose. Não faz mal, não importa, hoje o segredo é meu, hoje roubo-te a memória e aproveito a tua presença para voltar ao mimo.

Sorrio-te, sem que me vejas, feliz por saber que tudo se mantém. O momento não congelou naquela canção, repete-se, sempre, todos os dias e horas, quer haja banda sonora quer nos isolemos em silêncio. A partilha permanece. E eu sorrio.

Comigo: Peach Tree – Rufus Wainwright

Dia #9

Maio 7, 2010

O metropolitano traz sempre histórias. Pequeninas, mas suficientes.

Espreito por cima do ombro da mulher sentada atrás de mim. Aproveita para adiantar trabalho no joelho. Sorrio ao ver os testes que corrige rapidamente, com muitos vistos e certos. Uma pergunta não está tão bem respondida, pelo que acrescenta “não é assim”, a vermelho, como sempre. No fim do teste, há um boneco, para tirar um pouco o nervosismo aos miúdos.

Nunca estivesse deste lado, sempre imaginei algum formalismo na correcção dos testes. O professor sentar-se-ia no seu escritório escuro, rodeado de prateleiras recheadas de livros e, sob a luz incidente de um cadeeiro metálico, corrigiria compenetradamente cada teste, com calma e ponderação.

O professor tornou-se agora um pouco mais humano aos olhos da minha criança. Afinal, o metro é de todos.

Comigo: Oxalá te Veja – O’Questrada

Dia #8

Maio 6, 2010

Tive de regressar à escrita dirigida, o fim de um ciclo universitário assim o exige. Com o tempo contado, sentada à secretaria, escrevi-lhe.

Já não estava habituada a dedicatórias. A habilidade com as palavras empenara e recorri ao método habitual: a memória. Recolhem-se as recordações mútuas, encaixam-se num texto inócuo e as emoções de cada uma dela encarregam-se de dizer aquilo que as nossas palavras deixam escapar.

Foi demasiado. Duas décadas de memórias não se afunilam numa pequena fita de finalista. Não era sequer necessário recorrer a elas. A simples ideia de existirem  duas décadas de memórias e a permanência de uma amizade ao fim de tanto tempo, de tanto crescimento pessoal, de tanta peripécia e mudança, reduz o número de palavras necessárias para explicar-nos.

Sorri muito. Sem saudade, porque está ainda tudo presente. E foi tão simples, no fim, escrever.

Comigo:Love’s a Cliché – The Karelia

Dia #4

Maio 2, 2010

Tenho saudades da minha praia.

Por entre os corredores das compras inacabadas, chegou-me o cheiro forte do mar. Sorri, sem querer. A infância que passei por lá, com os pés descalços nas pedras de onde não escorrego, de olhos nos caranguejos pequenos com quem brinco, com a maresia nos meus pulmões completos e o cansaço bom que isso traz, os gelados no restaurante agreste, a areia molhada onde me deito, as lutas com o meu irmão no ringue improvisado, a língua de areia e o banho no oceano, tudo volta a mim. Sinto tudo isso ali, no meio dos detergentes e das frutas.

Dia da Mãe. Abraço-a repetidamente, digo que gosto muito dela. Beijo-lhe os cabelos e, de novo, cheiro a praia. Mãe, os teus cabelos cheiram a praia. Não serei, portanto, a única a sofrer de saudades.

Comigo: Sexto Andar – Clã

Dia #1

Abril 29, 2010

O céu mantém-se azul, apesar das estatísticas. O sono corre melhor e nasce um dia diferente. Hoje há força.

Sinto a energia a regressar a mim. Tenho memórias de sons e loucuras contidas de outros tempos, em que me era permitido descontrolar. Agora não. Talvez por isso aqui me fique, atrás da cortina pesada que esconde os prédios cansativos e o azul escasso de cima, e aumente o som. Relembro, com um sorriso malandro, a força que tive quando conhecia bem estas guitarras. As saudades apertam e, como ninguém vê, regresso a elas. Tenho permissão para saltar, para me contorcer na entoação silenciosa das letras, de relembrar o que significam, de tocar a guitarra que não tenho nas mãos. Rio-me porque sabe bem. Deixo o corpo ser, que o merece.

Disseram que me levam a dançar um destes dias. Hoje seria bom. Sinto-me melhor.

Comigo: Bulletproof Cupid – Placebo