Dia #35

Julho 25, 2010

O sol torra, mas a leveza dos dias impele ao passeio de fim de tarde. Lisboa chama-nos pelo som ao ar livre, num dos jardins da cidade. A companhia, que já se tornou a do costume, aconchega-se na sombra escassa, sobre as luas do lenço estendido. Deito-me sobre o colo cúmplice, o pé mantém o compasso do contrabaixo, e os olhos perdem-se. Há o rio, ao longe, há o castelo, no alto, há a serenidade  no céu azul. Sem uma nuvem. Sem um peso em cima. De mim.

Como o céu sobre nós um pouco depois, num dos topos da cidade, onde se petiscava o pôr-do-sol e se encerrava um fim-de-semana cheio. Há algo de novo e grandioso no ar. Há um começo. Hoje.

Comigo: Luz Vaga – Mesa

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Dia #34

Julho 24, 2010

Mais uma vez, aquela voz associada ao estado de espírito. Livre. Leve. Feliz. Com todas as letras a que tem direito.

O sorriso que aquele petisco proporcionara, assim que o nariz o adivinhou atrás da porta, previu logo a disposição ao longo do resto da noite. Tudo se adiara para hoje. E tudo se cumpria.

Levaram-me ao lugar prometido. Fui mais de mim. Fui inteira. Estupefacta pela possibilidade, esqueci, como tanto precisava, a armadura pesada. E observei-a. Dançava comigo, com o seu sorriso de volta, o sorriso que sempre adivinhei por detrás da rigidez dos dias, adornado de espírito límpido e, por fim, completo. Revistei a restante companhia, tão presente, tão certa, tão insubstituível. O peito cresceu. Quem diria. De novo, eu. Maior.

E, no fim, aquela música, aquela voz. O regresso a casa fora de casa. Livre. Leve. Feliz. Com todas as letras a que tenho direito.

Comigo: Heads Will Roll – Yeah Yeah Yeahs

Dia #33

Maio 31, 2010

Afinal sabe mesmo bem. Sozinha no carro, regresso à rádio que me acompanhou há uns anos atrás, quando a conseguia sintonizar no quarto de manhã. Parece lembrar-se de mim e, para me receber bem de volta, presenteia-me com Aquela voz. Aumento o som, tinha saudades de o ouvir e nada melhor para conseguir ignorar o trânsito demasiado lento do centro de Lisboa.

Feel no shame for what you are

De cotovelo apoiado junto à janela, recostada no banco, canto o que ainda recordo da letra, ainda tenho muito disto dentro de mim. A janela entreaberta não deverá passar muito da minha voz, espero. Não importa.

Stand absolved behind your electric chair

dancing

O momento é meu. Só. Sabe bem.

Comigo: New Year’s Prayer – Jeff Buckley

Dia #11

Maio 9, 2010

Porque surgiu aquela música. Esperava-a, é verdade, coloquei-a discretamente na lista de reprodução, mas não recordava já como me soava. E estavas a meu lado. Tinha tudo.

É aquela música laranja. A que nos relembra um momento nosso, uma partilha. Um segredo. Basta o primeiro som para acompanhar de volta ao outro primeiro instante. Olhei para ti, igual, e regressei a nós, um tempo antes. Não me ligaste muito, o tempo apertava e exigia-se concentração. Ao longo dos poucos minutos, não levantaste os olhos, não reconheceste a minha hipnose. Não faz mal, não importa, hoje o segredo é meu, hoje roubo-te a memória e aproveito a tua presença para voltar ao mimo.

Sorrio-te, sem que me vejas, feliz por saber que tudo se mantém. O momento não congelou naquela canção, repete-se, sempre, todos os dias e horas, quer haja banda sonora quer nos isolemos em silêncio. A partilha permanece. E eu sorrio.

Comigo: Peach Tree – Rufus Wainwright

Dia #6

Maio 4, 2010

Voltam os dias de estudo em tempo de sol. O café de janelas largas relembra o jardim longo, o verde vivo e as cores do Verão. Procuro esquecer a imagem nas linhas pretas das folhas. A vontade é outra.

Lá fora, invejo as raparigas na relva. Era isto que queria para mim hoje. Um pouco mais de calor, como o que se sente dentro do café, um lençol fresco sobre o verde, o corpo alongado sobre ele, o sol nas pernas por bronzear e pouco vento, para que possa ler os apontamentos sem que voem para longe. A motivação seria, com certeza, maior e o sono, enfim, talvez se controlasse com alguma música paralela.

Mas não. Não posso juntar-me ao grupo que relaxa, apenas. Os olhos pesam com a monotonia das conversas das gerações maduras que me rodeiam e os cafés não param de sair. O tema interessa, mas as letras pequenas custam às pálpebras pesadas. As tecnologias entram em acção pois é preciso algum som energético, o ruído hoje é demasiado.Vamos tentar, de novo.

Talvez amanhã traga o lençol.

Comigo: Airbag – Radiohead

Dia #1

Abril 29, 2010

O céu mantém-se azul, apesar das estatísticas. O sono corre melhor e nasce um dia diferente. Hoje há força.

Sinto a energia a regressar a mim. Tenho memórias de sons e loucuras contidas de outros tempos, em que me era permitido descontrolar. Agora não. Talvez por isso aqui me fique, atrás da cortina pesada que esconde os prédios cansativos e o azul escasso de cima, e aumente o som. Relembro, com um sorriso malandro, a força que tive quando conhecia bem estas guitarras. As saudades apertam e, como ninguém vê, regresso a elas. Tenho permissão para saltar, para me contorcer na entoação silenciosa das letras, de relembrar o que significam, de tocar a guitarra que não tenho nas mãos. Rio-me porque sabe bem. Deixo o corpo ser, que o merece.

Disseram que me levam a dançar um destes dias. Hoje seria bom. Sinto-me melhor.

Comigo: Bulletproof Cupid – Placebo