Dia #34

Julho 24, 2010

Mais uma vez, aquela voz associada ao estado de espírito. Livre. Leve. Feliz. Com todas as letras a que tem direito.

O sorriso que aquele petisco proporcionara, assim que o nariz o adivinhou atrás da porta, previu logo a disposição ao longo do resto da noite. Tudo se adiara para hoje. E tudo se cumpria.

Levaram-me ao lugar prometido. Fui mais de mim. Fui inteira. Estupefacta pela possibilidade, esqueci, como tanto precisava, a armadura pesada. E observei-a. Dançava comigo, com o seu sorriso de volta, o sorriso que sempre adivinhei por detrás da rigidez dos dias, adornado de espírito límpido e, por fim, completo. Revistei a restante companhia, tão presente, tão certa, tão insubstituível. O peito cresceu. Quem diria. De novo, eu. Maior.

E, no fim, aquela música, aquela voz. O regresso a casa fora de casa. Livre. Leve. Feliz. Com todas as letras a que tenho direito.

Comigo: Heads Will Roll – Yeah Yeah Yeahs

Anúncios

Dia #31

Maio 29, 2010

Há alturas em que deixam de haver palavras para descrever alguém. A estupefacção silencia-nos.

Não me recordo sequer de um sorriso. Ficou apenas o olhar inquiridor, o dedo imperativo, a voz autoritária e o humor ausente. A ajuda que veio prestar confunde-se com a imperiosidade em tomar o controlo. Critica sem saber do que fala. Exige sem pensar em mais ninguém. Questiona sem aceitar as razões. Levanta o tom de voz sem ouvir quem pouca razão tem para ouvir os seus comentários desproporcionados.

O dia foi de muito trabalho e este alguém não ajuda a um fim de dia descansado. As suas palavras árduas eliminam a réstia de força que ficara das longas horas. Vamos dormir, em breve será apenas, de novo, alguém longe e impotente.

Comigo: Aping Friends – Millionaire

Dia #30

Maio 28, 2010

Os preconceitos estão tão encravados em nós que nos surpreendem. À nossa frente seguia um camião do lixo e algo fez com que acordasse da meditação em que me encontrava. Algo não batia certo. Fora, possivelmente, o cabelo comprido de quem se segurava na traseira do camião que seguia ou, quem sabe, as formas femininas que se faziam adivinhar por entre o fato do costume. Não esperava uma mulher ali. Era uma profissão de homem e não era suposto ela estar ali. Mas as quebras de preconceitos animam-me, dão cor e sorrio.

O carro onde sigo ultrapassa o camião. Durante a manobra, observo-a, procurando ver-lhe a face feminina a contrastar com a profissão suja. De repente, vira a cara e vejo-a. De fronte fechada, equilibra um cigarro no canto esquerdo da boca. E, aquele ar másculo de fumar, parece relembrar à minha fantasia poética a razão de ser de certos preconceitos.

Comigo: A Forest – The Cure

Dia #27

Maio 26, 2010

“Hoje não há camarão!”, avisou logo. Pouco importaria, aliás, podiam-se escolher outros ingredientes. Não se importou e até brincou “Ooooh!”. A senhora do balcão vira-se para a colega, carrancuda, “porque há quem peça a salada mista e quando se apercebem que já não há camarão, já não querem!”, e larga o punho sobre a bancada, fazendo soar a zanga. “Tenha calma!”, ainda lhe dissemos, para tentar acalmar os ânimos. Não tivemos sorriso de volta. Assustada, fiz o pedido a medo, que o olhar baixo e os lábios fortemente cerrados exigiam muito respeito.

Seguimos para o fim do balcão para receber o pedido. Depois dos ingredientes, perguntou pelo molho. Cocktail, seria a escolha. “Esse não temos.” Para evitar mais agressividade, optou-se pelo tom de brincadeira “Não me diga!”. Para nossa surpresa, um rasgado sorriso responde “Estava a brincar!”. Assim já vale a pena, tão mais bonita de ver com um sorriso assim.

Há personalidades que não se compreendem.

Comigo: 3 Libras – A Perfect Circle

Dia #26

Maio 24, 2010

“Olá!”

Na rua, não esperamos intervenções alheias. Aguardamos alguém conhecido e quem nos cruza é apenas gente que nos cruza.

Porém, ouvimos um cumprimento simpático. Procurámos a sua origem, que nos soou longínqua, mas dirigida. Encontrámos duas figuras à janela no último andar do prédio em frente. As jovens acenam. Foi para nós o cumprimento, que mais ninguém se encontra nesta direcção. Mantenho a postura passiva enquanto a minha companhia acena de volta. Nenhuma de nós faz ideia de quem sejam. Serão apenas duas raparigas à janela, a chamar outras duas raparigas na rua.

Porém, um aceno correspondente não lhes chega. Mantêm a chamada de atenção. “É pr’á d’azul!” Sou eu. Estou de azul. Acordo então e aceno. Recebo algum entusiasmo no gesto de volta. Não consigo ler as suas caras daqui, mas mantêm-se fixas em nós.

Não sei quem me acenou. Daí a pouco desapareciam da janela. Ainda julguei que estivessem a descer para a rua, para continuar a conversação um pouco mais de perto. Quem aguardavamos acabou por chegar pouco depois e mais ninguém me acenou da janela do alto.

Comigo: Once and Over Again – The Long Blondes

Dia #25

Maio 23, 2010

O casal chama a atenção. Não porque quer, mas porque estou atenta. O cabelo, rapado nas margens para o deixar tigelado, com um pequeno tufo mais longo do lado esquerdo, atrás da orelha, é a primeira característica que salta à vista. Segue-se a camisola larga, solta sobre o corpo, o anel no lábio à direita, a língua possivelmente furada e a tatuagem circular no cotovelo esquerdo, que surge quando o calor aperta e a roupa se despe. Seguem-se os gestos.

O olhar não desprende da rapariga que acompanha, de tal forma que não se apercebe da atenção que lhe dedico, a pouco metros de distância, a um curto desvio do olhar. Logo que a oportunidade surge, o polegar escorrega pela sobrancelha dela, possivelmente encenando uma limpeza casual de algum incomodo. Noutro momento, cruzam-se os dedos sobre a mesa e servem os pontos de contacto para alguma troca de mimos.

Na mesa em frente, de costas para o casal, alguém culpa o americano gay emigrado em Portugal de ter dado início a este deboche, porque eles agora querem tomar conta disto tudo, esses gays, que não fazem evoluir a espécie, são estéreis, que com eles a sociedade morre.

Indiferentes à indignação, as duas raparigas permanecem de olhar fixo, ouvido mouco e coração entregue.

Comigo: How Soon is Now – The Smiths

Dia #23

Maio 21, 2010

O metro, por vezes, traz gente curiosa. Na plataforma, enquanto se aguarda a chegada do comboio, observa-se. Indiferente à espera, uma rapariga treina as suas habilidades malabaristas. De cabelo apanhado, roupa desportiva, phones nos ouvidos, brinca com as três bolas no ar. Começa por atirar duas, por trás do outro braço, e não pára. Troca de técnica várias vezes sem nunca mostrar hesitação. Impressiona a habilidade nata, a descontracção nos gestos, a naturalidade da brincadeira e a completa indiferença pela quantidade de olhares que se acumulam, desta e da outra plataforma em frente, hipnotizados com a rapariga.

Chega o metro e rapidamente guarda as bolas de novo na mala. Entra e encosta-se a um canto, descontraída. Não baixa o olhar, não fita ninguém, encosta-se, apenas, mergulhada em si e na música que ouve, até à próxima estação, onde sai. Não viu ninguém. Ia só.

Comigo: Common Reaction – Uh Huh Her

Dia #22

Maio 20, 2010

O calor voltou em força. Depois de uma caminhada longa, em que as sombras escassearam, chego, por fim, ao restaurante. Era mais um da cadeia de restaurantes que mais enfartes deverá provocar um pouco por todo o mundo. Neste, em particular, decorria uma tentativa de animação por parte do seu palhaço mascote. Um senhor, vestido a rigor, pintado como manda o manual, procurava entreter as crianças que por ali passavam. Chamou por um miúdo pequeno, que hesitou em tirar a fotografia, e só após o compromisso de ter a mãe junto com ele é que cedeu. Não me parece que fique para a memória. Foi apenas um palhaço chato.

Tive pena do senhor. Apesar da boa disposição, não estava a ter muito sucesso. E, para além disso, não fui capaz de ficar indiferente ao calor tórrido que deveria estar a sofrer debaixo daqueles trapos. Até a maquilhagem devia pesar. Não se faz.

Comigo:Mouth to Mouth – Faith No More

Dia #21

Maio 19, 2010

Então do que se queixa? Ai, senhor doutor, estou assim há já uns dias… Mas assim como?

A senhora de idade vem à urgência com a amiga para resolver o problema de dores de garganta e de ouvido que se arrastavam há algum tempo. Como manda o protocolo, tem alguma dificuldade em dizer sintetica e objectivamente o que tem. Após observação, o doutor pergunta pelos medicamentos que a senhora toma. A senhora prontamente retira da mala um saco de plástico transparente que despeja em cima da mesa. Várias lamelas cobrem o espaço possível, cada uma de sua raça, cada qual com sua função.  Entre eles, os típicos comprimidos para dormir. Segue a consulta e, enquanto o doutor lhe receita mais umas quantas doses para adicionar ao saco já carregado, a senhora pede “Será que me podia passar umas vitaminas? É que tenho um problema de coração.”

Já muito se tinha falado ao longo das aulas sobre o fenómeno do saco de plástico. Já se tinha referido a dificuldade em comunicar, nos comprimidos para dormir e na sabedoria caseira sobre aquilo que cada um precisa. Só nunca julguei ver tudo isso na mesma pessoa.

Isto é uma história modelo.

Comigo:Anda que Está Dura – B Fachada

Dia #20

Maio 18, 2010

No fundo, é um negócio. As costas deviam estar quentes, apesar de o tentar disfarçar. Apresenta com entusiasmo a casa, realça os detalhes bonitos, a luz, o espaço, a localização, o projecto de finalização das obras. Mas não hesita em introduzir discretamente conselhos para a vida diária. Porque há honra e decência, insiste em afirmar. Porque há bom senso e boa conduta. E ficamos todos felizes, repete no fim, não só para convencer de que é um bom negócio, mas para, em segredo, a ladainha servir de prece para que, de facto, aconteça.

A idade ensinou-lhe a arte da palavra manuseada. Refere com um sorriso as amizades que têm com os vizinhos e como todos se conhecem e dão bem e, no fundo, serve como aviso. Pergunta pelos pais, pela naturalidade e brinca com a possibilidade de namorados na terrinha de cada uma. Para o ouvido atento, depreende-se o interesse em saber que existe algum compromisso na capital que possa comprometer as regras de decência naquela casa. Mas não importa, não deixa de ser um bom negócio, com ou sem metediço.

Comigo: Hanuman – Rodrigo y Gabriela